O momento ainda é agora: Julgamento de colaborador dos nazistas como lembrança do Holocausto e como alerta para o perigo do negacionismo e da intolerância no mundo atual
Ania Cavalcante*
Num momento em que governantes negam o Holocausto, considerado o paradigma da barbárie da Humanidade e o crime mais documentado da História, num momento em que o regime desse mesmo governante discrimina, persegue, aprisiona, tortura e assassina minorias religiosas e opositores políticas, imputa a pena de morte a homossexuais, retira o Prêmio Nobel de uma cidadã de seu país, nesse mesmo momento inicia-se na Alemanha, na cidade de München (capital da Bavária), o processo contra o criminoso de guerra John Demjanjuk, um ucraniano colaborador do nazismo e do Holocausto. Nesse momento que é agora.
É na Alemanha que ocorre este julgamento, no país dos perpetradores, responsável pelo assassinato planejado e industrial de 2/3 dos judeus da Europa entre 1933 e 1945 e de outras milhares de vítimas: opositores políticos, homossexuais, Testemunhas de Jeová, ciganos, eslavos, deficientes físicos e mentais. Há que se fazer notar que o país dos perpetradores era justamente o país da Europa em que os judeus – que eram alemães – estavam mais assimilados e eram mais aceitos socialmente, no que se convenciou chamar de “simbiose judaico-alemã”. Além disso, no chamado país dos perpetradores houve opositores ao nazismo e ao Holocausto, e as primeiras vítimas desse regime e dos campos de concentração foram alemães: os opositores políticos comunistas, social-democratas, sindicalistas, e as vozes de outros representantes da sociedade, de grupos organizados como a Rosa Branca e Herbert-Baum Gruppe, que tiveram o mesmo destino, a morte, a civis como pastores como Martin Niemöller, que foram levados a campos de concentração. Houve perpetradores, e houve vítimas. Houve também testemunhas impotentes diante de uma máquina assassina. Houve também quem arriscasse corajosamente a própria pela em nome do Outro – do Outro ser humano ao lado.
Em todos países da Europa ocupada houve exemplos de oposição ao nazismo e de solidariedade em maior ou menos medida: de ajuda com alimentos a judeus e de esconder crianças judias, a movimentos armados dos partisans. Em um regime de violência generalizada e de barbárie industrializada e como principio motor, no qual, qualquer um - qualquer um, mesmo membro do Partido Nazista - que discordasse ou ajudasse uma vítima, em especial, um judeu, poderia ser levado a um campo de concentração, ou assassinado, a família ameaça ou assassinada,
Mas é certo que a Alemanha não foi a Dinamarca da época, em que o governo do Rei Chsitian X e a sociedade civil se uniram contra as medidas antijudaicas e o extermímio e salvaram praticamente todos os judeus do país, em um esforço comum – e perigoso – através de barcos com os judeus enviados para a Suécia, país neutro. Dos 7.800 judeus dinamarqueses, 60 morreram, sem conseguirem ser salvos pelos dinamarqueses.
De fato: naquele momento houve muitos colaboradores dos nazistas, que concordavam com o regime e o apoiaram, e participaram do Holocausto: camponeses poloneses, soldados romenos e italianos, policiais de reforço letões, funcionários húngaros e holandeses, cidadãos franceses, ministro norueguês, e também soldados ucranianos, como John Demjanjuk. Este atual réu foi guarda do campo de extermínio de Sobibor, onde foram assassinados 250 mil judeus de abril de
Em um momento determinado, no verão de 1942, John Demjanjuk se alistou como guarda para receber treinamento no Campo de Trawniki perto de Lublin, onde desde final de 1941 eram treinados ucranianos e alguns Volksdeutsche (alemães étnicos que viviam foram do território da Alemanha) para “trabalharem” como guardas nos campos de extermínio e, também, como forças de repressão dos guetos durante as deportações em massa, como o caso do gueto de Versóvia e as deportações para o campo de extermínio de Treblinka. Eram, portanto, treinados para ajudar o regime nazista no extermínio total dos judeus e do Judaísmo, chamado pelos nazistas de “Solução Final da Questão Judaica”. Ao todo, houve 5 mil trawnikis, treinados para participar ativamente da indústria de violência e assassinato, dentre os quais, John Demjanjuk.
Os campos de extermínio eram lugares onde em sua maioria judeus, mas também vítimas dos nazistas (e de seus colaboradores), como ciganos e eslavos, eram levados imediatamente para a morte. Estes campos – Belzec, Sobibor e Treblinka – foram erigidos no General Government, uma unidade territorial da Polônia criada depois de sua invasão e início da Segunda Guerra Mundial, quando a parte oriental da Polônia foi ocupada pela Alemanha, enquanto a parte ocidental o foi pela então União Soviética. O território polonês ocupado pela Alemanha era chamado de General Government e consistia nos distritos de Varsóvia, Lublin, Cracóvia, Radom e Lvov, onde viviam 2.284.000 de judeus do total de 3.300.000 judeus de toda Polônia, ou seja, onde viviam 70% dos judeus poloneses. Vale lembrar que dos 3.300.000 judeus poloneses, 3.000.000 – ou seja, 90% - foram assassinados pelos nazistas e seus colaboradores. Colaboradores como John Demjanjuk.
Mas o que fazia um colaborador, um guarda trawniki como John Demjanjuk em um campo de extermínio? A função principal era levar às vítimas para as câmaras de gás – a morte. Os documentos e relatos a respeito são estarrecedores. Quando os transportes de trem chegavam com as vítimas, muitas delas já chegavam mortas, em decorrência de passarem dias ou semanas sem se alimentar ou beber. Os que sobreviviam, chegavam fracos pela viagem, além da fome e sede, do cansaço, já haviam passado por outros momentos: haviam visto suas cidades sendo destruídas, familiares e amigos mortos, humilhados, despojados de seus pertences, levados a guetos, explorados em trabalho forçado, mortos de fome, doença ou exaustão. Haviam visto e vivido isto. Quando os que sobreviviam chegavam a Sobibor, eram recebidos por cerca de 30 oficiais da SS alemães e 100 ucranianos trawnikis da SS, todos bem fardados, bem armados e bem alimentados. OS trawnikis os conduziam para o campo II de Sobibor, onde as vítimas deixavam todos os seus poucos pertencem e despiam-se, avisados de que deveriam cortas os cabelos e tomar um banho para evitar doenças e prosseguiriam viagem para um campo de trabalho forçado. Fazia parte buscar ocultar das vítimas o seu destino.
Despidas, mulheres de todas as idades, incluindos suas filhas e netas, incluindo nenês, e depois homens de todas as idades, incluindo seus filhos e netos, eram conduzidos por um caminho estreito, de 3-
A porta de entrada da câmara de gás era hermeticamente fechada, a luz se apagava. Mães com seus filhos, avós com seus netos lá dentro. Seres humanos. Cristais granulados de Zyklon B eram jogado por uma fresta da câmara e, em contato com o ar, se transformavam
Assim eram assassinadas aproximadamente 2 mil pessoas por dia
John Demjanjuk, cujo real é Iwan Demjanjuk, acusado de participação no assassinato de 25 mil judeus, nega seu crime, nega ter estado
* Ania Cavalcante é historiadora, doutora em História pela USP com especialização pelo Yad Vashem de Israel, professora e pesquisadora do módulo "Holocausto e Antissemitismo" do Laboratório de Estudos sobre a Intolerância da USP (LEI-USP) e professora nativa de Língua Alemã.





1 comentários:
O mais triste é saber que eles morrem mas sua presença continua. Na Internet, por exemplo, há diversos sites nazistas.
Postar um comentário